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- Nós o transportamos
o ano passado, foi uma operação e tanto - disse o Sr. Carlin, enquanto
subiam a escada. - A remoção teve que ser manual, claro. Não havia outro
jeito. Fizemos um seguro contra acidentes, no Lloyd's, antes mesmo de
tirá-lo de sua vitrine, na sala de visitas. Era a única firma que o seguraria
pela soma que tínhamos em mente.
Spangler nada disse. O homem era um tolo. Johnson Spangler
aprendera, havia muito e muito tempo, que a única maneira de lidar com
um tolo é ignorá-lo.
- Foi segurado por um quarto de milhão de dólares - prosseguiu
o Sr. Carlin, quando chegaram ao patamar do segundo andar. Sua bocacontorceu-se
em uma linha meio amarga e meio humorística. - Aliás, o prêmio nos custou
um bom dinheiro...
Era um homem de baixa estatura, nào inteiramente gordo, com
óculos sem arcos e uma calva amorenada, que brilhava como uma bola de
volêi envernizada. Uma armadura, guardando as sombras de mogno do corredor
do segundo andar, fitou-os impassivelmente.
Era um longo corredor, e Spangler examinou as paredes e quadros
com frio olho clínico. Samuel Claggert comprara em vastas quantidades
porém não soubera comprar. Como tantos outros imperadores autodidatas
da indústria de fins dos anos 80, no século passado, ele fora pouco mais
do que um vasculhador de casa de penhores, mascarand0-se em roupagens
de colecionador, um connoisseur de mostruosidades em telas, de coleções
vulgares de poesia ou novelas em luxuosas encardenações de couro, bem
como de atrozes peças esculpidas, por ele consideradas como Arte.
Naquelas paredes estavam pendurados - engrinaldados, seria
o termo correto - imitações de tapetes marroquinos, inúmeros (e sem dúvida
anônimas) madonas segurando bebês com halos, enquanto inúmeros anjos pairavam
em todos os pontos do fundo, grotescos candelabros em arabescos e um lustre
monstruoso, obscenamente enfeitado por uma ninfeta sorrindo despudoradamente.
Sem dúvida, o velho pirata conseguia alguns artigos interessantes;
a lei de proporcionalidade assim o exigia. E, se o Museu Particular Memorial
Samuel Claggert (visitas com Guia, por hora - Entrada: 1 dólar para Adultos,
50 centavos para Crianças - repugnante) se contituía de lixo gritante
em 98 por cento, sempre havia aqueles outros dois por cento, coisas como
o longo rifle Coombs acima do fogão, na cozinha, a estranha e pequena
câmera obscura na sala e, naturalmente, o...
- O espelho Delver foi removido do andar debaixo após um...
um acidente algo infeliz - disse bruscamente o Sr. Carlin, aparentemente
motivado pelo fantasmagórico e penetrante retrato de ninguém em particular,
na base do segundo lance de escadas - Houve outros - declarações rudes,
comentáros maldosos - porém desta vez, foi realmente uma tentativa de
destruir o espelho. A mulher, uma Srta. Sandra Bates, chegou com uma pedra
no bolso. Por sorte, sua pontaria era ruim e ela só rachou um canto da
vitrine. O espelho ficou intacto. Essa Srta. Bates tinha um irmão...
- Não é preciso oferecer-me a visita de um dólar - disse Spangler
em voz calma. - Estou a parda história do espelho Delver.
- Fascinante, não é mesmo? - Carlin atirou-lhe um olhar curioso
enviezado. - Houve aquela duquesa inglesa em 1709... e o mercador de tapetes
da Pensilvânia, em 1746... para não mencionarmos...
- Estou a par da história - repetiu Spangler, na mesma voz
tranqüila. - O que me interessa é o acabamento artesanal. Além disso,
claro, existe a questão da autenticidade...
- Autenticidade? - o Sr. Carlin deu uma risadinha sufocada,
um som seco, como o de ossos espreguiçando-se em um armário debaixo da
escada. - Ele foi examinado por peritos, Sr. Spandler.
- O Stradivarius Lemlier também.
- É verdade - disse o Sr. Carlin, com um suspiro - mas nenhum
Stradivarius já possuiu o... o efeito perturbador do espelho Delver.
- Sim, nunca - disse Spangler, em sua voz suavemente contida.
Agora percebia que era impossível calar Carlin, o velho possuía uma mente
perfeitamente sintonizada com a idade. - Nunca. Subiram o terceiro e quarto
lance em silêncio. À medida que se aproximavam do teto da desconxa edificação,
ficava opressivamente quente nas escuras galerias superiores. Com o calor,
chegava um insinuante odor que Spangler conhecia bem, pois passara toda
a sua vida adulta trabalhando nele - o cheiro de mostras mortas há muitos
anos nos cantos penumbrosos, de decomposição úmida e rastejantes parasitas
de madeira por trás do estuque. O cheiro da idade. Era um cheiro comum
apenas aos museus e mausoléus. Ele imaginava que o mesmo cheiro podia
provir da sepultura de uma jovem virginal, falecida quarenta anos antes.
Ali em cima, as relíquias eram empilhadas a torto e a direito,
na profusão de uma verdadeira loja de quinquilharias; o sr. Carlin conduziu
Spangler através de um labirinto de esculturas, telas com molduras estilhaçadas,
pomposas gaiolas de pássaros dourado-prateadas, o esqueleto desmembrado
de uma antiga bicicleta tandem. Levou-o até a parede mais afastada, onde
uma escada de mão fora colocada abaixo de um alçapào no forro. Um cadeado
enferrujado pendia do alçapão.
Mais para a esquerda, um Adônis de imitação os fitava impiedosamente
com opacos olhos sem pupilas. Um braço estava estirado e, do pulso, pendia
um cartão amarelo, com os dizeres: ENTRADA ABSOLUTAMENTE PROIBIIDA.
O Sr. Carlin, tirou um molho de chaves do bolso do casaco,
selecionou uma das chaves e subiu na escada. Parou noo terceiro degrau,
a calva brilhando francamente nas sombras.
- Não gosto desse espelho - comentou. - Aliás, jamais gostei
dele. Não gosto de espiar nele. Tenho medo de, um dia olhar e ver... o
que o resto deles viu.
- Eles nada viram além de si mesmos - disse Spangler.
O Sr. Carlin começou a falar, parou, balançou a cabeça e remexeu
acima dele, dobrando o pescoço para encaixar direito a chave na fechadura.
- Devia ser trocada - murmurou. - Ele está... droga!
A fechadura saltou de repente e o cadeado se soltou. O Sr.
Carlin tentou apanhá-lo no ar e quase caiu da escada. Spangle agarrou
o cadeado, antes que batesse no chão, depois ergueu os olhos para o homem.
O Sr. Carlin agarrava-se tremulamente ao alto da escada, o rosto branco,
brilhando na penumbra.
- Isso o deixa nervoso, não é ? - perguntou Spangler, em um
tom ligeiramente inquisitivo.
O Sr. Carlin não respondeu. Parecia paralisado.
- Deça - disse Spangler. - Por favor. Antes que caia.
Carlin desceu lentamente, agarrando-se a cada degrau, como
um homem engatinhando acima de um abismo sem fundo. Quando seus pés tocaram
o chão, começou a gaguejar, dando a impressão de que o piso era percorrido
por alguma corrente e que esta o ligara como uma lâmpada elétrica.
- Um quarto de milhão - dizia ele. - Um quarto de milhão de
dólares como seguro, para trazer aquela... coisa lá debaixo até aqui!
Essa maldita coisa! Tiveram que montar uma forma especial e içá-la com
guincho até o espigão do depósito, lá em cima. E eu esperava - quase rezava
- para que os dedos de alguém ficassem escorregadios... que a corda não
agüentasse... que a coisa despencasse e se estilhaçasse em mil pedaços...
- Fatos - disse Spandler. - O que interessa são fatos, Carlin.
Nada de novelas em brochuras baratas, de histórias baratas de tablóides
ou de filmes de terror igualmente baratos. Fatos. Número um: John Delver
foi um artesão inglês, de descendência normanda, fabricante de espelhos
no que chamamos de período elizabetano da história da Inglaterra. Viveu
e morreu obscuramente. Sem pentáculos riscados no chão, para a criada
apagar, sem documentos cheirando a enxofre, com uma mancha de sangue na
linha pontilhada. Número dois: Seus espelhos tornaram-se peças de colecionadores,
devido principalmente ao seu fino acabamento artesanal e ao fato de que
uma forma de cristal fosse usada com um leve efeito ampliador e distorcido
para o olho de quem a segurasse - uma marca registrada bem distintiva.
Número três: que saibamos, restam apenas cinco Delver - dois deles na
América. Inestimáveis, no tocante a preço. Número quatro: Este Delver
e um outro que foi destruído na Blitz de londres, adquiriram uma reputação
algo espúria, devido principalmente à falsidade, exagero e coincidência...
- Fato número cinco - disse o Sr. Carlin - você é um arrogante
bastardo, não ?
Spangler fitou o Adônis cego, com leve irritação.
- Eu fui o guia no tour do qual fazia parte o irmão de Sandra
Bates, quando ele viu seu precioso espelho, Spangler. O rapazinho teria
uns dezesseis anos, estava com u grupo de ginásio. Eu ia relatar a história
do espelho e acabara de chegar à parte que você apreciaria - enaltecendo
seu acabamento perfeito, a perfeição do espelho em si - quando o rapaz
levantou a mão. "O que significa aquele borrão preto no canto superior
esquerdo ?' perguntou ele. "Parece que houve uma falha."
"Um amigo seu perguntou o que ele queria dizer. Orapaz
Bates começou a dizer, depois se calou. Olhou para o espelho com profunda
atenção, chegando bem junto da corda de veludoo vermelho, em torno da
vitrine que guardava o espelho - então olhou para trás, como se o que
houvesse visto fosse o reflexo de alguém - de alguém vestido de preto
- de pé ao seu ombro. 'Parecia um homem - disse ele - mas não pude ver
seu rosto . Agora desapareceu.' E isso foi tudo.
- Continue - disse Spangler. - Está ardendo de vontade de
me dizer que era Morte. o Segador - creio que esta é a explicação comum,
não? A de que ocasionais pessoas escolhidas vêem aimagem do Segador no
espelho? Ora, esqueça, homem! O National Inquirer adoraria isso! fale-me
sobre as horríveis conseqüências e desafie-me a explicá-las. Ele foi atropelado
por um carro, mais tarde? Atirou-se de uma janela? O que foi?
O Sr. Carlin deu uma risadinha incrédula.
- Penso que devia saber melhor, Splanger. Não medisse duas
vezes que está... hum... a par da história do espelho Delver? Não houve
conseqüências horríveis. Nunca tem havido. Daí porque o espelho Delver
não aparece nos suplementos dominicais, como o diamante Koh-i-noor ou
a maldição da tumba do Rei Tutankamon. Ele é mundano, comparado com o
resto. Acha que sou um tolo, não?
- Exatamente - respondeu Spangler. - Podemos subir agora?
- Claro - disse o Sr. Carlin ardoroso.
Subiu a escada e empurrou o alçapão. Houve um ruído "clique-claque"
quando ele foi puxado para as sombras por um contrapeso. O Sr. Carlin
desapareceu na penumbra. Splanger o seguiu. O Adônis cego olhava cegamente
para eles.
***
O aposento do
espigão era explosivamente quente, iluminado apenas por uma janela de
muitos ângulos, coberta de teias de aranha, que filtrava a claridade crua
do exterior, transformando-a em suja luminosidade leitosa. O espelho estava
inclinado em uma esquina, de frente para a luz, captando a maioria da
claridade e refletindo-a em uma faixa perolada, na parede oposta. Havia
sido seguramente ajustado em uma moldura de madeira. O Sr. carlin não
olhava para ele. Deliberadamente evitava fitá-lo.
- Nem ao menos o protegeu com um pano velho! - exclamou Spangler
visivelmente irritado pela primeira vez.
- Eu penso nele como um olho - disse o Sr. Carlin. Sua voz
continuava seca, absolutamente vazia.
- Se for deixado aberto, sempre aberto, talvez acabe ficando
cego.
Spangler não lhe deu atenção. Tirou o casaco, dobrou cuidadosamente
os botões para dentro e, com infinita delicadeza, limpou a poeira da superfície
convexa do espelho. Depois recuou e olhou para ele.
Era legítimo. De fato, não havia dúvidas quanto a isso, nunca
houvera. tratava-se de um perfeito exemplo do particular gênio de Delver.
O recinto amontoado de quinquilharias atrás dele, seu próprio reflexo,
a imagem meio virada de Carlin - tudo surgia claro, nítido, quase tridimensional.
O ligeiro efeito amplificador do espelho dava a tudo uma qualidadde levemente
encurvada, que acrescentava uma distorção quase quadridimensional. Ele
era...
Seu fio de pensamentos interrompeu-se e ele sentiu outra onda
de raiva.
- Carlin!
Carlin nada disse.
- Carlin, seu maldito tolo, pensei ouvi-lo dizer que a moça
não danificara o espelho!
Nenhuma resposta.
Spangler dirigiu-lhe um olhar gélido, atrvés do espelho.
- Há um pedço de fita isolante no canto superior esquerdo.
Ela o rachou ? Pelo amor de Deus, homem, diga alguma coisa!
- Você está vendo o Segador - disse Carlin. Sua voz era inexpressiva
e sem paixão. -Não há nenhuma fita isolante no espelho. Passe
a mão sobre o lugar... oh, Deus!
Spangler enrolou cuidadosamente a parte superior da manga
do casaco em torno da mão, esticou o braço e fez uma leve pressão contra
o espelho.
- Está vendo ? Não há nada de sobrenatural. Desapareceu. Minha
mão cobriu o que havia.
- Cobriu? Pode sentir a fita? Por que não a arranca?
Spangler afastou a mão cautelosamente e olhou para o espelho.
Tudo nele parecia um pouco mais distorcido; os estranhos ângulos do aposento
davam a impresão de bocejar loucamente, como se prestes a deslizarem para
o âmago de alguma eternidade invisível. Não havia nenhuma mancha escura
no espelho. Estava imaculada. Spangler percebeu um medo súbito e doentio
crescer dentro de si e desprezou-se por sentí-lo.
- Parecia ele, não? - perguntou o Sr. Carlin. Seu rosto estava
muito pálido e ele olhava diretamente para o chão. Um músculo saltou espamodicamente
em seu pescoço. -Confesse, Spangler. Não parecia uma figura encapuzada,
em pé às suas costas?
- Parecia uma fita isolante, tapando uma pequena rachadura
- respondeu Spangler, em voz firme. - Nada mais, nada menos...
- O rapaz Bates era muito robusto - disse Carlin rapidamente.
Suas palavras pareciam cair na atmosfera quente e imóvel, como pedras
atiradas em água escura. - Como um jogador de futebol. Usava um blusão
com inicais e calças verde-escuras. Estávamos a meio caminho para a exposição
no andar de cima, quando...
- Este calor me faz mal - disse Spangler, em voz pouco firme.
Havia apanhado um lenço e enxugava o pescoço. Seus olhos perscrutaram
a superfície convexa do espelho, em leves e abruptos movimentos.
- Quando ele disse que queria um gole d'água... um gole d'água,
pelo amor de Deus!-Carlin
se virou e olhou desvairadamente para Spangler. - Como eu podia saber?
Como eu podia saber?
- Há algum lavatório por aqui? Acho que vou...
- O blusão dele... apenas tive um vislumbre de seu blusão,
quando ele desceu a escada... e então...
-...vomitar!
Carlin abanou a cabeça, como se quisesse arejá-la, e tornou
a fitar o chão.
- Claro. Terceira porta à sua esquerda, no segundo andar,
tomando a direção da escada. -Ergueu os olhos, suplicante. - Como eu podia
saber?
Spangler, no entanto, já começava a descer a escada. Ela balançou
sob seu peso e, por um momento, Carlin pensou - esperou - que ele fosse
cair. Não caiu. Pela abertura quadrada do piso, Carlin ouviu descer, tapando
levemente a boca com uma das mãos.
- Spangler...?
Ele já se fora.
Carlin ouviu as pisadas dissolvendo-se em ecos, depois cessando.
Quando deixou de ouví-las,
estremeceu violentamente. Tentou mover os pés para o alçapão, mas estavam
gelados. Apenas aquele último e apressado vislumbre do blusão do rapaz...
Céus!...
Era como se enormes mãos invisíveis lhe puxassem a cabeça,
forçando-a a erguer-se. Não querendo espiar, assim mesmo Carlin olhou
para as bruxuleantes profundezas do espelho Delver. Nada havia lá.
O aposento se refletia fielmente para ele seus confins empoeirados
transformados em difuso infinito. Ocorreu-lhe um trecho quase esquecido
de um poema de Tennyson, e ele o recitou, em um murmúrio:
"As sombras deixam-me algo indisposta, disse a Senhora
de Shallott..."
E, ainda assim, ele não conseguia desviar os olhos, imobilizado
pela quieta atmosfera. Perto de um canto do espelho, uma cabeça de búfalo
roída de traças, espiava-o com chatos olhos obsidianos.
O rapaz quisera água e o bebedouro ficava no saguão do primeiro
andar. Ele havia descido a escada e...
E nunca mais voltara.
Nunca mais.
Em qualquer lugar.
Como a duquesa, que fizera uma pausa após arrumar-se para
uma soirée diante do espelho e voltara ao quarto de vestir para apanhar
suas pérolas. Como o mercador de tapetes, que saíra para um passeio de
carruagem e deixara para trás apenas uma carruagem vazia e dois cavalos
mudos. E o espelho Delver estivera em Nova York de 1897 a 1920, estivera
lá, quando o juiz Crater...
Carlin olhava fixamente, como que hipnotizado, para as raras
profundezas do espelho. Mais abaixo, o Adônis cego continuava vigilante.
Ele esperou por Spangler, da mesma forma que a família Bates
devia ter esperado pelo filho, como o marido da duquesa devia ter esperado
que sua esposa voltasse do quarto de vestir. Ficou olhando para o espelho
e esperou.
E esperou.
E esperou.
"A Imagem
do Segador", retirado do livro "Tripulação de Esqueletos"
de Stephen King, 1987, Livraria Francisco Alves, Editora S.A.
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