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Foi por intermédio
de William P. Ryan, correspondente de um jornal americano, que ouvi falar
pela primeira vez no caso. Estava jantando com ele em Londres na véspera
de seu regresso a Nova York e, por acaso, mencionei que na manhã seguinte
pretendia ir a Folbridge.
Ele levantou os olhos e perguntou abruptamente:
- Folbridge, na Cornualha?
Ora, é raríssima a pessoa que sabe que existe Folbridge, na
Cornualha. Todo mundo sempre pensa que se trata de Folbridge em Hampshire.
Por isso o conhecimento de Ryan despertou minha curiosidade.
-É - respondi. - Você já esteve lá?
Ele limitou-se a praguejar. Depois perguntou se por acaso
eu não conhecia uma casa chamada Trearne, que ficava por lá.
Meu interesse aumentou.
- Claro que conheço. Por sinal, é para lá que eu vou.
É a casa da minha irmã.
-Puxa! - exclamou William P. Ryan. - Só faltava mais essa!
Sugeri que parasse de fazer comentários enigmáticos e se explicasse
melhor.
- Bem - disse ele. - Para isso terei que começar por uma experiência
que tive no início da guerra.
Suspirei. A história que estou contando aconteceu em 1921. A última coisa
que podia me interessar era relembrar a guerra, graças a Deus já quase
esquecida... Além do mais, eu sabia que William P. Ryan tinha o costume
de ser incrivelmente prolixo quando se punha a descrever suas experiências
de combate.
Mas agora não havia mais jeito de impedir.
- No princípio da guerra, como acho que você sabe, eu me encontrava
na Bélgica a serviço do jornal... andando de um lado para o outro. Pois
existia um lugarejo... vamos chama-lo de X. A aldeia mais insignificante
que já se viu, mas onde há um convento bastante grande. Freiras de branco,
como é mesmo que elas se chamam? ... Sei lá o nome da ardem. Enfim, não
vem ao caso. Pois esta cidadezinha ficava bem no caminho da avançada alemã.
Os boches chegaram ...
Agitei-me incômodo no assento. William P. Ryan levantou a
mão, para me tranqüilizar.
- Não se assuste - disse. - Não é uma história de atrocidades
germânicas. Podia ter sido, talvez, mas não foi. Para ser franco, aconteceu
exatamente o contrário. Os boches atacaram o tal convento ... e quando
entraram, a coisa toda voou pelos ares.
- Puxa! - exclamei , espantado.
- Negócio estranho, não é? Claro que a primeira coisa que
eu diria é que os boches estavam festejando a vitória e começaram a brincar
com seus próprios explosivos. Mas parece que não havia nenhuma coisa deste
tipo entre os armamentos que eles carregavam. Não era uma unidade encarregada
do transporte de dinamite. Pois muito bem, eu então pergunto a você o
que é que um bando de religiosas entende de explosivos? Que freiras danadas,
hem?
- De fato, é estranho - concordei.
- Fiquei interessado em ouvir a opinião dos camponeses sobre
o assunto. Para eles a explicação não podia ser mais simples. Tratava-se
de um milagre moderno, sensacional, cem por cento eficaz. Segundo eles,
uma das freiras havia criado uma espécie de fama ... uma vocação de santa
... entrava em transe e tinha visões. E me disseram que foi ela a autora
da proeza. Pediu que um raio fulminasse o invasor impiedoso ... e não
há que negar que fulminou mesmo ... e tudo mais que se encontrava por
perto. Milagre bem eficaz, esse!
"Nunca consegui apurar a verdade direito ... não deu
tempo. Mas naquela época surgiam milagres por tudo quanto é canto ...
anjos em Mons, e assim por diante. Escrevi o artigo, adicionei uma boa
dose de pieguice, explorei bem o lado religioso, e mandei pro jornal.
Causou sucesso nos Estados Unidos. Era o tipo de coisa que gostavam de
ler naquele tempo.
"Mas (não sei se você vai compreender isto) ao escrever
o artigo, fiquei meio interessado. Achei que gostaria de saber o que tinha
realmente acontecido. No próprio local não havia nada para se ver. Ainda
restavam duas paredes de pé, numa delas existia uma grande marca de pólvora
preta com a forma exata de um enorme cão de caça. Os camponeses das imediações
andavam mortos de medo da tal marca. Botaram-lhe o nome de Cão da morte
e não passavam por lá depois que anoitecia.
"A superstição é sempre uma coisa interessante. Resolvi procurar
a freira autora da proeza. Parecia que continuava viva. Mas tinha vindo
para a Inglaterra, junto com um grupo de outros refugiados. Me dei ao
trabalho de localizá-la. Descobri que havia ido para Trearne, em Folbridge,
na Cornualha."
Confirmei com a cabeça.
- Minha irmã acolheu uma porção de refugiados belgas no começo
da guerra. Uns vinte, mais ou menos.
- Pois me prometi que, quando tivesse tempo, iria procurar
a tal freira. Queria que ela me contasse a sua própria versão da tragédia.
Depois, andando sempre às voltas com uma coisa e outra, não pensei mais
no assunto. A Cornualha, de qualquer forma, fica meio fora de mão. Para
falar a verdade, tinha-me esquecido por completo dessa história, até que
você, ao mencionar Folbridge há pouco, trouxe tudo de volta à minha memória.
- Vou perguntar à minha irmã - disse eu. - Ela deve ter ouvido
falar no caso. Só que os belgas, naturalmente, já foram repatriados há
muito tempo.
- Lógico. Mesmo assim, se sua irmã souber de alguma coisa,
eu gostaria muito que você me comunicasse.
- Pode ficar descansado - prometi.
E a coisa ficou nesse pé.
II
Foi no dia seguinte
à minha chegada a Trearne que me lembrei da história. Minha irmã e eu
estávamos tomando chá no terraço.
- Kitty - perguntei, - não havia uma freira entre os belgas
que você acolheu?
- Você não quer dizer a irmã Marie Angelique, não é?
- É possível que sim - respondi, precavido. - Me fale sobre
ela.
- Ah, meu caro! É uma criatura simplesmente fantástica. Ainda
mora aqui, você sabia?
- Quê? Aqui em casa?
- Não, não, na aldeia. O Dr. Rose ... lembra-se do Dr. Rose?
Sacudi a cabeça.
- Eu me lembro de um velho de seus oitenta e três anos.
- O Dr. Laird? Não, esse já morreu. Faz pouco tempo que o
Dr. Rose veio para cá. É bem moço e cheio de idéias avançadas. Se tomou
de um interesse enorme pela irmã Marie Angelique. Sabe, ela sofre de alucinações
e não sei mais o quê, e pelo jeito é tremendamente interessante sob o
ponto de vista médico. Coitada, não tinha para onde ir ... e realmente,
na minha opinião, era bem amalucada ... só que de uma maneira comovente,
se é que você me entende ... pois bem, como eu ia dizendo, ela não tinha
para onde ir e o Dr. Rose, muito gentilmente, arrumou para que ela ficasse
na aldeia. Creio que está escrevendo uma monografia ou seja lá o que for
que os médicos escrevem, a respeito dela.
Fez uma pausa e depois perguntou:
- Mas o que é que você sabe dela?
- Ouvi uma história bastante curiosa.
E contei exatamente o que Ryan tinha medito. Kitty ficou interessadíssima.
- Ela parece mesmo o tipo da pessoa que seria capaz de mandar
você pelos ares ... entende o que eu quero dizer, não é?
- Estou achando - respondi, cada vez mais curioso, - que preciso
mesmo falar com essa moça.
- Pois fale. Eu gostaria de saber sua opinião sobre ela. Mas
primeiro procure o Dr. Rose. Por que não vai até a aldeia depois do chá?
Aceitei a sugestão.
Encontrei o Dr. Rose em casa e me apresentei. Parecia ser
um rapaz simpático, mas havia qualquer coisa na sua personalidade que
não me agradou muito. Era prepotente demais para deixar a gente inteiramente
à vontade.
Ficou bem atento quando mencionei a irmã Marie Angelique.
Era evidente que estava profundamente interessado. Contei-lhe a história
que tinha ouvido de Ryan.
- Ah! - exclamou, pensativo. - Isso explica uma porção de
coisas.
Levantou rápido os olhos para mim e continuou.
- O caso, de fato, é incrivelmente interessante. Quando ela
chegou aqui, era evidente que tinha sofrido algum choque muito grande.
Encontrava-se também num estado de grave perturbação mental. Era dada
a alucinações de uma natureza simplesmente desconcertante. A personalidade
dela é absolutamente fora do comum. Talvez o senhor queira vir junto comigo
para lhe fazermos uma visita. Vale a pena conversar com ela .
Concordei prontamente.
Dirigimo-nos a um pequeno chalé nos arredores da aldeia. Folbridge
é um lugar muito pitoresco. Fica na foz do rio Fol, sobretudo na margem
leste; a margem oeste é escarpada demais para ser povoada, o que não impede
que existam algumas casas construídas temerariamente lá por aqueles penhascos.
A do médico, por exemplo, estava encarapitada bem na extremidade do penhasco
do lado oeste. Dali se avistavam as grandes ondas batendo contra os rochedos
negros.
O pequeno chalé para onde agora nos dirigíamos ficava afastado
da costa, sem vista para o mar.
- A enfermeira local mora aqui - explicou o Dr. Rose.
- Eu providenciei para que a irmã Marie Angelique se hospedasse
com ela. É melhor que permaneça sob cuidados especiais.
- Ela tem comportamento normal? - perguntei , curioso.
- Daqui a pouco o senhor verá com seus próprios olhos - respondeu-me,
sorrindo.
A enfermeira local, uma mulherzinha baixota e simpática, estava
saindo de bicicleta quando chegamos.
- Boa tarde, enfermeira. Como vai a paciente? - gritou o médico.
- Como sempre, doutor. Sentada lá dentro com as mãos no colo
e o espírito ausente. Muitas vezes não responde quando lhe falo, apesar
de que deve-se levar em conta que ainda não entende bem o inglês.
Rose concordou com a cabeça e, enquanto a enfermeira saía
pedalando pela estrada afora, foi até a porta do chalé, bateu com força
e entrou.
A irmã Marie Angelique estava reclinada numa preguiçosa perto
da janela. Virou a cabeça para o nosso lado.
Tinha um rosto estranho - pálido, transparente, com olhos
imensos. Pareciam conter uma infinidade de tragédias.
- Boa tarde, irmã - disse o médico, em francês.
- Boa tarde, M. le docteur.
- Permita-me apresentar-lhe um amigo, Mr. Anstruther.
Fiz uma mesura. Ela inclinou a cabeça com um leve sorriso.
- Como está hoje? - perguntou o médico, sentando-se a seu
lado.
- Como sempre. - Houve uma pausa. Depois continuou. - Nada
me parece real. São dias ... meses ... ou anos que passam? El mal sei.
Só meus sonhos me parecem reais.
- Ainda sonha muito, então?
- Sempre ... sempre ... e, o senhor compreende? ... os sonhos
parecem mais reais do que a vida.
- Sonha com seu país ... com a Bélgica?
Ela sacudiu a cabeça.
- Não. Sonho com um país que nunca existiu ... nunca.
Mas isso o senhor está cansado de saber, M. le docteur. Já
lhe contei várias vezes. - Parou e depois disse bruscamente:
- Mas talvez este senhor também seja médico ... um especialista
de doenças do cérebro?
- Não, não.
Rose quis tranquilizá-la, mas enquanto sorria, notei como
seus dentes caninos eram incrivelmente pontudos e me ocorreu que havia
qualquer coisa de lobo nele. Prosseguiu:
- Achei que talvez tivesse interesse em conversar com Mr.
Anstruther. Ele conhece um pouco a Bélgica. Ultimamente recebeu notícias
do seu convento.
Os olhos dela se viraram para mim. Senti que avermelhei de
leve.
- Não é nada, realmente - me apressei a explicar. - Mas outra
noite estava jantando com um amigo que me descreveu as paredes desmoronadas
do convento.
- Quer dizer então que desmoronaram!
Era uma exclamação sufocada, dirigida mais a ela própria do
que a nós mesmos. Depois, olhando-me mais uma vez, perguntou hesitante:
- Diga-me monsieur, o seu amigo não descreveu como ... de
que maneira ... desmoronaram?
- Foi devido a uma explosão - respondi, e acrescentei:
- Os camponeses têm medo de passar lá de noite.
- Por quê?
- Por causa de uma marca preta nos escombros de uma parede.
São muito supersticiosos.
Ela se curvou para a frente.
- Diga-me, monsieur ... depressa ... depressa ... diga-me!
Como é esta marca?
- Tem a forma de um enorme cão de caça - respondi.
- Os camponeses lhe botaram o nome de Cão da Morte.
- Ah! - exclamou num grito. - Então é verdade ... é verdade.
Tudo o que eu me lembro é verdade. Não foi nenhum pesadelo. Isso aconteceu!
Aconteceu!
- O que aconteceu irmã? - perguntou o médico em voz baixa.
Ela se virou ansiosa, para ele.
- Eu me lembrava. Lá nos degraus, eu me lembrava.
Me lembrava de tudo. Usei o poder que tínhamos antigamente. Fiquei parada
nos degraus do altar e pedi que não se aproximassem. Mandei que fossem
embora, em paz. Não quiseram ouvir, continuaram vindo apesar das minhas
advertências. E aí ... - Curvou-se para frente e fez um gesto estranho.
- E aí eu soltei o Cão da Morte em cima deles ...
Recostou-se de novo na cadeira, estremecendo da cabeça aos
pés, os olhos fechados.
O médico se levantou, foi buscar um copo no armário, encheu
de água até o meio, pingou duas gotas de um frasquinho que tirou do bolso,
e depois levou para ela.
- Beba isto aqui - pediu, autoritário.
Ela obedeceu - maquinalmente, por assim dizer. Tinha o olhar
distante, como se estivesse contemplando uma visão que só ela podia enxergar.
- Mas então tudo é verdade - murmurou. - Tudo. A cidade dos
círculos, as pessoas de cristal ... tudo. É tudo verdade.
- Parece que sim - concordou Rose.
Falava em voz baixa, apaziguadora, com o nítido propósito
de estimular e não perturbar a associação de idéias da religiosa.
- Fale-me da cidade - pediu. - Da Cidade dos Círculos, não
foi isso que você disse?
- Sim ... havia três círculos - respondeu maquinalmente, distraída.
- O primeiro se destinava aos eleitos, o segundo às sacerdotisas e o ultimo
aos sacerdotes.
- E no centro?
Ela tomou fôlego com veemência e a voz adquiriu um tom de
indescritível pavor.
- A casa de Cristal ...
Ao pronunciar essas palavras, levantou a mão direita e traçou
com o dedo um contorno qualquer sobre a testa.
Seu corpo pareceu mais rígido e, sempre de olhos fechados,
oscilou um pouco - depois, de repente, endireitou-se de um salto, como
se tivesse acordado bruscamente.
- Que foi? - perguntou, confusa. - Que que eu estava falando?
- Não foi nada - respondeu Rose. - Você está cansada. Quer
descansar. Nós já vamos embora.
- Então - disse Rose, já do lado de fora. - Qual foi a sua
impressão?
Lançou-me um olhar penetrante enquanto caminhávamos.
- Acho que ela está completamente desequilibrada - respondi,
devagar.
- Foi isso que lhe pareceu, é?
- Não ... para dizer a verdade, ela quase me convenceu ...
de uma maneira até estranha. Ouvindo o que ela falava, tive a impressão
de que, de fato, havia feito tudo aquilo que descrevia ... operando uma
espécie de gigantesco milagre. O jeito como ela acredita nisso me parece
bastante autêntico. É por isso que ...
- É por isso que o senhor diz que ela está desequilibrada.
Tem razão. Mas agora encare o caso sob outro aspecto. Suponhamos
que ela tenha, realmente, feito aquele milagre ... suponhamos que ela,
pessoalmente, tenha destruído um prédio e centenas de seres humanos.
- Pelo simples poder da vontade? - retruquei, sorrindo.
- Não diria bem isso. O senhor sabe que uma pessoa pode destruir uma multidão
apertando um botão que controla um sistema de minas.
- Sim, mas isso é uma coisa mecânica.
- De fato, é uma coisa mecânica, mas é a utilização e o controle
de forças naturais. As trovoadas e a usina elétrica são, fundamentalmente,
a mesma coisa.
- Sim, mas para controlar a trovoada nós temos que recorrer
a processos mecânicos.
Rose sorriu.
- Vou escapar pela tangente. Existe uma substância chamada
gaultéria, que aparece na natureza em forma de vegetal, mas que também
pode ser obtida sintética e quimicamente no laboratório.
- E daí?
- O que eu quero dizer é que muitas vezes há duas maneiras
de chegar ao mesmo resultado. A nossa é, reconhecidamente, a sintética.
Mas talvez haja outra. Os incríveis resultados conseguidos pelos faquires
hindus, por exemplo, não se explicam satisfatoriamente com qualquer resposta
fácil. As coisas que chamamos de sobrenaturais não têm, necessariamente,
nada de sobrenatural. Uma lanterna elétrica seria sobrenatural para um
selvagem. O sobrenatural é apenas o natural daquilo cujas leis ainda não
entendemos.
- Que quer dizer? - perguntei, fascinado.
- Que não posso excluir por completo a possibilidade de que
o ser humano talvez seja capaz de armazenar uma grande força destruidora
e usa-la para atingir seus objetivos. Os meios pelos quais ele conseguiria
isso poderiam nos parecer sobrenaturais ... mas na realidade não são.
Arregalei os olhos.
Ele riu.
- Trata-se apenas de uma especulação - disse, despreocupado
... - Me diga uma coisa, o senhor não reparou no gesto que ela fez quando
mencionou a Casa de Cristal?
- Ela passou a mão pela testa.
- Exatamente. E traçou um círculo com o dedo. Tal como um
católico ao fazer o sinal da cruz. Agora vou lhe contar uma coisa bastante
curiosa, Mr. Anstruther. A palavra cristal já foi usada tantas vezes nas
divagações da minha paciente, que decidi fazer uma experiência. Peguei
um cristal emprestado e um dia mostrei-o inesperadamente para testar a
reação dela.
- E daí?
- Bem, o resultado foi muito interessante e sugestivo. Ela
endureceu todo o corpo e ficou olhando para o cristal como se não pudesse
acreditar no que estava vendo. Depois caiu de joelhos diante dele, murmurou
algumas palavras ... e desmaiou.
- Que palavras que ela disse?
- Muito estranhas. "O Cristal! Então a fé ainda vive!"
- Que coisa incrível!
- Dá para a gente pensar, não é? Agora vem a parte curiosa.
Quando ela voltou a si do desmaio, tinha-se esquecido de tudo. Mostrei-lhe
o cristal e perguntei se sabia o que era. Me respondeu que imaginava que
fosse uma dessas bolas de cristal usadas pelos adivinhos. Perguntei-lhe
se nunca tinha visto uma. Ela respondeu: "Nunca, M. le docteur".
Mas eu notei que estava com o olhar perplexo. "O que é que a está
preocupando, irmã?", perguntei. Ela respondeu: "É que acho tão
estranho. Nunca tinha visto antes um cristal e no entanto ... me parece
que já conheço tão bem. Tem uma coisa ... se ao menos pudesse me lembrar
..." O esforço que fazia para recordar era evidentemente tão penoso
que eu proibi que pensasse mais naquilo. Isso foi há duas semanas. Venho
contemporizando de propósito. Amanhã vou fazer uma nova experiência.
- Com o cristal?
- É. Quero que ela olhe bem para ele. Acho que o resultado
vai ser interessante.
- Que espera descobrir? - perguntei, curioso.
A pergunta era ociosa, mas o resultado foi inesperado. Rose
se impertigou todo, avermelhou, e quando respondeu seu comportamento havia
mudado sem que se desse conta. Esta mais formal, mais profissional.
- A explicação para certos desequilíbrios mentais que não
se compreendem direito. A irmã Marie Angelique é um objeto de estudo muito
interessante.
Quer dizer, então, que o interesse de Rose era unicamente
profissional? - pensei.
- Não se importa que eu venha junto? - perguntei.
Talvez fosse imaginação minha, mas me pareceu que ele hesitou
antes de responder. Tive a súbita intuição de que não queria que eu fosse.
- Claro que não. Não faço a menor objeção.
E acrescentou:
- O senhor não pretende se demorar muito por aqui, não é?
- Só vou ficar até depois de amanhã.
Deu-me a impressão de ter ficado contente com a resposta.
Desanuviou a testa e começou a falar sobre certas experiências feitas
recentemente em cobaias.
III
Na tarde do dia
seguinte me encontrei com o médico na hora marcada e fomos juntos à casa
da irmã Marie Angelique. Ele estava todo gentil, talvez para desfazer
a impressão causada na véspera.
Não leve muito a sério o que eu disse - comentou, rindo. -
Não vá pensar que me dedico a ciências ocultas. O diabo é que eu tenho
uma fraqueza infernal para tirar as coisas a limpo.
- É mesmo?
- É sim, e quanto mais fantásticas, mais eu gosto.
Riu como a gente ri de uma fraqueza engraçada.
Quando chegamos ao chalé, a enfermeira local queria consultar
Rose sobre não sei o quê, de modo que fiquei a sós com a irmã Marie Angelique.
Vi que ela me analisava minuciosamente. Não demorou muito,
disse:
- A nossa querida enfermeira me falou que o senhor é irmão
daquela senhora tão educada que mora lá no casarão para onde me levaram
quando vim da Bélgica.
- Sou, sim - confirmei.
- Ela foi muito boa para mim. É uma ótima pessoa.
Calou-se, como que remoendo uma idéia. Por fim perguntou:
- M. le docteur também é uma ótima pessoa?
Fiquei meio atrapalhado.
- É sim. Quero dizer ... acho que é.
- Ah! - Fez uma pausa e depois acrescentou: - Não há que negar
que ele tem sido muito bom para mim.
- Sem dúvida nenhuma.
Ela levantou bruscamente os olhos.
- Monsieur ... o senhor ... o senhor que agora está conversando
aqui comigo ... o senhor acha que eu estou louca?
- Ora, irmã, uma idéia dessas nunca me ...
Ela sacudiu lentamente a cabeça - interrompendo meu protesto.
- Será que estou louca? Sei lá ... as coisas que eu lembro
... as coisas que eu esqueço ...
Suspirou, e nesse instante Rose entrou na sala.
Cumprimentou-a alegremente e explicou o que desejava que ela
fizesse.
- Sabe, há certas pessoas que possuem o dom de ver coisas
num cristal. Desconfio que você também possua esse dom, irmã.
Pareceu inquieta.
- Não, não, eu não posso fazer isso. Tentar adivinhar o futuro
... isso é pecado.
Rose ficou surpreso. Não contava com aquela reação. Mudou
logo de tática.
- Não se deve querer ver o futuro, tem toda a razão. Já o
passado ... é diferente.
- O passado?
- Sim ... existem muitas coisas estranhas no passado. Que
voltam como relâmpagos ... entrevistos um instante
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}
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... e depois desaparecem
de novo. Não procure enxergar nada no cristal, já que isso não lhe está
permitido. Apenas pegue-o nas mãos ... assim. Olhe para ele ... olhe bem.
É ... olhe bem no fundo ... cada vez mais. Já está se lembrando, não é?
Está sim. E também ouve minha voz, falando com você. Agora responda minhas
perguntas. Não está me ouvindo?
A irmã Marie Angelique tinha pegado o cristal como ele pedia,
segurando-o com estranho respeito. Depois, à medida que ia olhando bem
para ele, seu olhar se tornou vago, como se não estivesse vendo mais nada,
e deixou pender a cabeça. Parecia estar dormindo.
O médico tirou-lhe o cristal delicadamente das mãos e colocou-o
em cima da mesa. Levantou-lhe o canto da pálpebra. Depois veio sentar-se
ao meu lado.
- Temos que esperar que acorde. Acho que não vai demorar muito.
Tinha razão. Ao cabo de cinco minutos, a irmã Marie Angelique
se mexeu. Abriu languidamente os olhos.
- Onde estou?
- Aqui ... em casa. Você dormiu um pouco. Sonhou, não sonhou?
Ela confirmou com a cabeça.
- Sonhei, sim.
- Foi com o Cristal?
- Foi,
- Conte pra nós.
- O senhor vai me achar louca, M. le docteur. Pois imagine,
no meu sonho, o Cristal era um emblema sagrado. Cheguei, inclusive a conceber
um segundo Cristo, um Mestre do Cristal, que morreu pela sua fé, cujos
discípulos foram caçados ... perseguidos ... Mas a fé sobreviveu.
- Sobreviveu?
- Sim ... durante quinze mil luas cheias ... quero dizer,
durante quinze mil anos.
- Quanto tempo dura uma lua cheia?
- O tempo de treze luas comuns. Sim, foi na décima - quinta
milésima lua cheia ... eu, naturalmente era uma Sacerdotisa do Quinto
Signo na Casa de Cristal. Foi nos primeiros dias do advento do Sexto Signo
...
Franziu as sobrancelhas e uma expressão de medo passou-lhe
pelo rosto.
- Cedo demais - murmurou. - Cedo demais. Um engano ... Ah
sim! Agora me lembro! O Sexto Signo!
Meio que saltou em pé, depois recostou-se de novo, passando
a mão pelo rosto e murmurando:
- Mas que estou dizendo? Deliro Essas coisas nunca aconteceram.
- Vamos, não se preocupe.
Mas ela o olhava, perplexa, angustiada.
- M. le docteur, eu não entendo. Por que é que eu tenho esses
sonhos ... essas fantasias? Eu tinha apenas dezesseis anos quando entrei
para a vida religiosa. Nunca viajei. No entanto sonho com cidades, com
pessoas e costumes estranhos. Por quê?
Apertou a cabeça entre as mãos.
- Nunca foi hipnotizada, irmã? Nem entrou em estado de transe?
- Nunca fui hipnotizada, M. le docteur. Quanto ao transe,
quando eu rezava na capela, meu espírito muitas vezes se alienava do corpo
e eu ficava uma porção de horas como se estivesse morta. Era, sem dúvida,
um estado de bem - aventurança, um estado de graça ... como dizia a Reverenda
Madre. Ah, é? - Prendeu a respiração. - Agora me lembro. Nós também chamávamos
isto de estado de graça.
- Gostaria de fazer uma experiência, irmã - disse Rose numa
voz bem natural. - Talvez disperse essas lembranças penosas. Vou lhe pedir
que olhe mais uma vez para o cristal. Depois lhe direi uma determinada
palavra. Você responderá com outra. Continuaremos assim até que se sinta
cansada. Concentre seus pensamentos no cristal e não nas palavras.
Enquanto eu tornava a desembrulhar o cristal e o entregava
à irmã Marie Angelique, reparei na maneira respeitosa com que ela o pegava.
Pousado sobre o veludo preto, ficou entre as delgadas palmas de suas mãos.
Ela o fitava com aqueles maravilhosos olhos profundos. Houve um curto
silêncio e depois o médico disse: "Cão".
A irmã Marie Angelique respondeu imediatamente: "Morte".
IV
Não pretendo
descrever todos os pormenores da experiência. O médico pronunciou muitas
palavras sem importância nem sentido. Repetiu outras várias vezes, ora
obtendo a mesma resposta, ora obtendo uma resposta diferente.
Naquela noite comentamos o resultado da experiência no pequeno chalé do
médico nos penhascos.
Ele pigarreou e puxou seu caderno de notas mais para perto.
- Estes resultados são interessantíssimos ... muito curiosos.
Em resposta às palavras "Sexto Signo", nós obtivemos uma profusão
de outras: Destruição, Roxo, Cão, Poder, depois novamente Destruição e,
por fim, Poder. Mais tarde, como talvez tenha observado, inverti o método,
com os seguintes resultados. Em resposta a Destruição, obtive Cão; a Roxo,
Poder; a Cão, novamente Morte, e a Poder, Cão. Isso está tudo inter-relacionado,
mas numa segunda repetição de Destruição, eu obtive Mar, que parece totalmente
descabido. Para as palavras "Quinto Signo", eu obtive Azul,
Pensamentos, Pássaro, novamente Azul e, por fim, a frase bastante sugestiva
Abertura do espírito à percepção. A partir do fato de que "Quarto
Signo" evoca a palavra Amarelo, e depois Luz, e que "Primeiro
Signo" é respondido por Sangue, eu deduzo que cada Signo tenha uma
cor própria, e possivelmente um símbolo próprio, sendo que o do Quinto
seria um Pássaro e o do Sexto um Cão. Desconfio, porém que o Quinto Signo
representasse o que se conhece comumente pelo nome de telepatia - a abertura
do espírito à percepção. O Sexto Signo, sem dúvida, representa o Poder
da Destruição.
- Qual o significado de Mar?
- Isso, confesso que não sei explicar. Eu pronunciei a palavra
depois e obtive a resposta comum de Barco. Para o Sétimo Signo, houve
primeiro Vida, e na segunda vez Amor. Para o Oitavo Signo, obtive a resposta
Nenhum. Suponho, portanto, que Sete era a soma e o número dos signos.
- Mas o sétimo não foi atingido - exclamei, numa súbita inspiração.
- Pois com o Sexto chegava a Destruição!
- Ah! O senhor acha é? Mas nós estamos levando essas ... divagações
malucas muito a sério. Elas de fato, só possuem interesse sob um ponto
de vista médico.
- Certamente atrairão a atenção dos investigadores de fenômenos
psíquicos.
Os olhos do médico se franziram.
- Meu caro senhor, eu não tenho a menor intenção de divulga-las
ao público.
- Então o seu interesse ...?
- É unicamente profissional. Está claro que tomarei notas
sobre o caso.
- Compreendo.
Mas, pela primeira vez, percebi que não estava compreendendo
nada. Levantei-me.
- Bem, desejo-lhe uma boa noite, doutor. Amanhã parto de volta
para a cidade.
- Ah!
Tive impressão de que havia satisfação, talvez alívio, atrás
dessa exclamação.
- Desejo-lhe boa sorte nas suas investigações continuei, despreocupadamente.
- Da próxima vez que nos encontrarmos, não solte o Cão da Morte em cima
de mim, hem?!
Enquanto falava, segurava-lhe as mãos e senti o susto que
levou. Mas logo se recompôs. Os lábios se abriram num sorriso, mostrando
os longos dentes pontudos.
- Que poder para um homem que se embriagasse com ele! - exclamou.
- Ter a vida de cada ser humano na palma da mão!
E alargou ainda mais o sorriso.
V
Esse foi o fim
de minha ligação direta com o caso.
Mais tarde, o caderno de notas e o diário do médico chegaram
às minhas mãos. Vou reproduzir aqui os seus rápidos apontamentos, embora
vocês hão de compreender que eles só caíram em meu poder algum tempo depois.
5 de agosto. Descobri que a irmã M.A. entende por "Eleitos"
aqueles que reproduziram a raça. Eram, pelo visto, venerados e exaltados
acima do Sacerdócio. Veja-se o contraste com os cristãos primitivos.
7 de agosto. Convenci a irmã M.A. a me deixar hipnotizá-la. Consegui provocar-lhe
o sono e o transe hipnótico, mas não estabeleci nenhuma relação.
9 de agosto. Teriam existido civilizações antigas perto das quais a nossa
fosse insignificante? Por estranho que pareça, tudo indica que sim, e
eu sou o único homem que possui a pista ...
12 de agosto. A irmã M.A. não se mostra nada suscetível à sugestão quando
hipnotizada. No entanto, o estado de transe é facílimo de ser provocado.
Não posso entender.
13 de agosto. A irmã M.A. mencionou hoje que em "estado de graça"
o "portão precisa ficar fechado, para que ninguém mais domine o corpo".
Interessante - mas desconcertante.
18 de agosto. Quer dizer, pois, que o Primeiro Signo não é senão ... (faltam
palavras que foram apagadas) ... então quantos séculos vai levar para
chegar ao Sexto? Mas se houvesse um atalho para o poder ...
20 de agosto. Providenciei tudo para que M.A. viesse para cá com a enfermeira.
Disse-lhe que é indispensável manter a paciente sob a ação da morfina.
Estarei louco? Ou será que sou o Super - homem, com o Poder da Morte em
minhas mãos?
(Aqui terminam os apontamentos.)
VI
Creio que foi
no dia 29 de agosto que recebi a carta .Vinha endereçada a mim, aos cuidados
de minha cunhada, numa letra deitada de estrangeira. Abri o envelope com
certa curiosidade. Dizia o seguinte:
Cher monsieur,
Falei só duas vezes com o senhor, mas sinto que é uma pessoa
em quem posso confiar. Não sei se meus sonhos são verdadeiros ou não,
mas ultimamente se tornaram mais nítidos ... E monsieur, de uma coisa
estou absolutamente certa, o Cão da morte não é nenhum sonho ... Nos dias
de que lhe falo ( não sei se foram reais ou não). Aquele que era o Guarda
do cristal revelou cedo demais o Sexto Signo ao Povo ... O mal se apoderou
de seus corações. Ganharam o poder de matar à vontade - e injustamente
- tomados de cólera. Embriagaram-se com o volúpia do Poder. Quando percebemos
isso, nós que ainda éramos puros, logo vimos que mais uma vez não completaríamos
o Círculo nem atingiríamos o Signo da Vida Eterna. E aquele que estava
escalado para ser o próximo Guarda do Cristal teve que agir. Para que
os velhos perecessem e os novos, depois de séculos sem fim, pudessem ressurgir,
ele soltou o Cão da Morte em cima do mar ( cuidando para não fechar o
círculo) e o mar se levantou na forma de um Cão e tragou a terra por completo
...
Já me lembrei disso antes - nos degraus do altar, na Bélgica
...
O Dr. Rose pertence à Irmandade. Ele conhece o Primeiro Signo
e a forma do Segundo, embora ninguém, salvo alguns eleitos, esteja a par
do seu significado. Por meu intermédio ele chegaria ao Sexto. Até agora
consegui resistir-lhe - mas me sinto cada vez mais fraca, monsieur, e
não convém que um homem atinja o poder antes da hora. Muitos séculos hão
de se passar antes que o mundo esteja preparado para receber o poder da
morte em suas mãos ... Eu lhe suplico, monsieur, o senhor que tanto preza
o bem e a verdade, me ajude ... antes que seja tarde demais.
Sua irmã em Cristo,Marie Angelique.
Deixei o papel cair no chão. A terra sob os meus pés parecia
menos firme que de costume. Depois comecei a me reanimar. A crença da
coitada, por mais autêntica que fosse, tinha quase me contagiado. Mas
não havia dúvida. O Dr. Rose, com seu fanatismo para tirar as coisas a
limpo, estava ultrapassando dos limites de sua condição profissional.
Eu ia correr até lá e ...
De repente dei com uma carta de Kitty no meio da correspondência. Abri
o envelope. Dizia:
Aconteceu uma coisa horrível. Você se lembra do chalezinho
do Dr. Rose, lá no penhasco? Pois, ontem à noite, houve um desmoronamento
de terra e o doutor e aquela pobre freira, a irmã Marie Angelique, morreram.
Os destroços na praia são um verdadeiro horror - tudo amontoado de uma
maneira fantástica - de longe parece um enorme cão ...
A carta me caiu das mãos.
Os outros fatos talvez fossem coincidência. Um tal de Mr.
Rose, que eu descobri que era um parente rico do médico, morreu repentinamente,
naquela mesma noite - dizem que fulminado por um raio. Ao que me consta,
não houve nenhum temporal nas imediações, mas duas pessoas declararam
ter ouvido uma trovoada. E no corpo do morto apareceu uma queimadura elétrica
"de uma forma curiosa". Em seu testamento deixava tudo para
o sobrinho, o Dr. Rose.
Ora, suponhamos que o Dr. Rose conseguisse obter o segredo
do Sexto Signo por intermédio da irmã Marie Angelique. Ele sempre me deu
impressão de ser um sujeito inescrupuloso - que não hesitaria em dar cabo
da vida do tio se tivesse certeza de que ficaria impune. Mas uma frase
da carta da irmã Marie Angelique não me sai da cabeça:" ... cuidando
para não fechar o Círculo ... " O Dr. Rose não teve esse cuidado
- talvez ignorasse as medidas que devia tomar ou até nem soubesse que
precisava fazer isso. E assim a Força que usou se voltou contra ele, fechando
o círculo ...
Mas claro, que bobagem! A explicação é perfeitamente natural.
Que o doutor acreditasse nas alucinações da irmã Marie Angelique apenas
prova que o cérebro dele também estava levemente desequilibrado.
No entanto, às vezes eu sonho com um continente submarino
onde a humanidade outrora viveu e atingiu um grau de civilização muito
mais adiantado que o nosso ...
Ou será que a memória da irmã Marie Angelique funcionava de
trás para diante - como alguns dizem que é possível - e que a tal Cidade
dos Círculos se encontra no futuro e não no passado?
Bobagem - claro que tudo foi só alucinação!
(Agatha Christie).
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